Até mesmo a criação do homem foi um job sem prazo

Até mesmo a criação do homem foi um job sem prazo
(Imagem: Murilo Battistella/@tudovirabichinho)
Murilo Battistella

 

Quando os deuses finalmente se cansaram de suas próprias perfeições, decidiram acabar com o tédio enchendo o mundo de mortais. O briefing para a criação de todos os seres vivos chegou na bancada do Olimpo sem muitas informações e o job entrou na pauta da dupla Prometeu e Epimeteu.

 

– Seguinte, o mundo é grande, mas o prazo é pequeno. A boa notícia é que temos muitos assets aqui para trabalhar: são características e qualidades que vocês precisam distribuir igualmente entre os bichos, de modo que a sobrevivência de todos fique equilibrada. Vamos falar?

 

Após perder a manhã inteira reclamando do prazo e do processo como um todo, Epimeteu (em grego, “aquele que pensa depois”) desceu para fumar um cigarro, voltou com um energético e sentou a bunda na cadeira. “Eu vou começar logo a fazer aqui, depois você confere comigo se tá tudo certo, belê?”. Prometeu (em grego, “aquele que pensa antes”) bufou em silêncio por, mais uma vez, ter que montar um planejamento retroativo.

 

Entre um pedaço de pizza e outro, Epimeteu foi criando cada bicho. Para os mais frágeis, deu velocidade. Para os mais lentos, deu força. A alguns deu revestimentos grossos que os protegessem do frio e, a outros, abrigo do calor. Colocou cascos, chifres, bicos e outras armas naturais em alguns. Contemplou outros com a habilidade de voar, subir em árvores, nadar rápido, tudo de modo a deixar a disputa pela sobrevivência uma briga justa. Foi distribuindo e salvando tudo na rede.

 

Já eram altas horas quando Epimeteu largou a caneta. “Prometeu, dá uma chegada aqui, acho que temos”. Prometeu foi vendo as peças e batendo com o briefing. “Esse ficou massa, hein? Esse aqui… estranho, mas deixa pro cliente reprovar”.

 

Epimeteu já estava pronto para chamar um UberBLACK na conta da empresa quando Prometeu lançou a braba: “Bicho, tu esqueceu de criar o homem”. Seu irmão quase chorou na mesa. Ele já tinha usado todos os recursos e disse que preferia virar mortal (e morrer) a ter que refazer tudo.

 

“Você não pode deixar ele assim, pelado, descalço, sem pêlos grossos, sem asas, sem força, sem velocidade. Condições zero de sobrevivência, esse aí não vai passar!”

 

Foi então que o desespero do deadline bateu forte. Porque na mitologia, você sabe, prazo é sempre uma coisa complicada, é sempre aquele negócio de “momento marcado pelo destino” e todo mundo sabe como é difícil adiar o destino por uma semana. Prometeu, então, decidiu quebrar as regras para ajudar seu irmão: invadiu o servidor dos deuses, roubou de Hefesto a habilidade com o fogo e, de Atena, a sabedoria. Passou tudo por AirDrop pra Epimeteu dar ao homem como meio de defender sua vida. Job finalizado, Epimeteu mandou o Keynote por WeTransfer, postou uma selfie no elevador com o horário de saída e se deu um day off no dia seguinte.

 

Sobrou para Prometeu apresentar o projeto 5 minutos antes da campanha ir para o ar. Ou melhor, para a Terra. Como não houve margem para alteração, a ideia ruim foi aprovada. O homem foi parar no mundo, e Prometeu foi parar na rua. O que na mitologia significa que ele foi condenado pelos deuses a ficar eternamente amarrado em cima de um penhasco, com um abutre comendo o seu fígado o dia inteiro, todos os dias, num castigo eterno. Ele tentou abrir um processo trabalhista, mas disseram a ele que se não quisesse ter seu fígado sendo devorado deveria trabalhar com outra coisa, pois estava no mercado errado.

 

Assim, nasceu o privilegiado e também amaldiçoado ser humano: o único animal do mundo a possuir características divinas. O único bicho com consciência de si e inteligência cognitiva para imaginar qualquer coisa que ainda não exista. Só nós temos capacidade de ter ideias e inventar histórias, muitas delas envolvendo a nossa própria criação, como é o caso deste conto mitológico de Prometeu e Epimeteu.

 

Daí já viu: cada um acredita na teoria da Criação do mundo que quer, porque isso tem tudo a ver com a nossa necessidade de autoafirmação. Queremos tanto acreditar que somos seres especiais, criados à imagem e semelhança dos deuses, que chega a ser revoltante, para muita gente, o ensino do darwinismo nas escolas.

 

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O mesmo acontece na criação publicitária. É um mercado inteiro com uma relutância enorme em aceitar a evolução como ela é, apegado a algumas práticas, crenças e dogmas que já não fazem mais o menor sentido.

 

Vão dizer que não dá pra ser criativo em healthcare, que não dá pra ser criativo em agência in-house, que não dá pra entregar nenhuma ideia boa antes das 18h, enfim. Você pode completar a lista com o que tiver na sua cabeça, pois eu tenho certeza que, dentro dela, ainda existem muitas destas crenças infundadas. Na minha eu sei que tem.

 

Se você ainda acredita nelas, talvez você seja um negacionista. Ou apenas siga idolatrando os deuses errados. O momento é de reinvenção e de botar esse nosso cérebro divino pra funcionar, tendo em mente sempre o básico: o mais adaptado sobrevive.

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