
O que vivi no Hacktown me lembrou que boas ideias gostam de gente por perto
Ketyanne Silva
Santa Rita do Sapucaí não é só um palco de inovação — ela é um berço. Do café coado na varanda à roda de conversa que vira insight na fila da palestra, o Hacktown me mostrou, mais uma vez, que o futuro não nasce em keynote: nasce no calor das trocas humanas. Estive lá para palestrar, circular, provocar e escutar. Mas saí com algo ainda maior: uma certeza renovada de que marcas, criadores e estrategistas precisam parar de procurar tendências e começar a viver o que pulsa nelas.
A CHEGADA: HOSPITALIDADE QUE É ESTRATÉGIA
Fui recebida por uma família local — gentil, carinhosa, que faz parte ativa do evento. Esse tipo de recepção é raro já que na maioria dos festivais tudo inicia de forma fria em hospedagens em hotéis. E diz muito. Em tempos em que todo mundo fala sobre comunidade, Santa Rita entrega uma que vive e respira isso. Aqui, as pessoas não só hospedam o Hacktown. Elas são Hacktown. Isso deveria fazer parte do briefing de qualquer marca que queira se conectar com verdade em eventos locais.
DADOS COM ALMA – NA CASA FUTUROS POSSÍVEIS
No painel “Dados contam histórias – como transformar comportamento em narrativa”, ao lado de Marcelo Gripa (Futuros Possíveis) e Anna Oliveira (Beet), falamos sobre a diferença entre olhar para os dados e escutar o que eles estão dizendo. Na era do excesso de informação, quem consegue transformar comportamento em narrativa relevante se destaca. Dividi cases, reflexões e provocações sobre como criar estratégias com alma, que não se perdem entre relatórios e dashboards.

BRIEFINGS NÃO CRIAM MEMÓRIAS (MAS CONVERSAS SIM)
No meu segundo painel, “Briefings Não Criam Memórias: a concorrência e os dados para conquistar a experiência de marca”, ao lado de Heloisa Renata de Santana (AMPRO) e Luana Oliveira (LOGAN Brasil), com mediação de Paulo Emediato (MIT Sloan Review).
Falamos sobre um ponto que ainda assombra muitos profissionais de marketing, por que tantas ativações de marca são esquecíveis? não é falta de budget, é falta de intenção estratégica. Discutimos o uso real dos dados (não só para medir, mas para criar), o desafio da concorrência entre agências e como os eventos precisam deixar de ser uma planilha logística para se tornarem um ativo de marca emocional e cultural.
Não basta entregar. É preciso marcar. E pra isso, o briefing é só o começo, o que cria memória é aquilo que atravessa, envolve e permanece.
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OS SINAIS NAS ENTRELINHAS: DE LABUBU ÀS NOVAS TRIBOS DA INTERNET
Vi palestras sobre moda, produção audiovisual com IA e até sobre neurociência, como podemos hackear a felicidade? Em todas elas, o que me chamou atenção foi o uso simbólico do afeto. Como as novas gerações estão construindo seus mundos através de referências que antes seriam consideradas infantis, inúteis, pequenas. Mas que hoje têm peso, valor e impacto cultural real.
DO CAFÉ À FEIRA INDÍGENA: O FESTIVAL QUE NÃO SE ENCERRA NA PROGRAMAÇÃO
Entre um painel e outro, descobri o melhor café e a melhor linguiça apimentada da minha vida. Vi uma feira com artesanato local e presença indígena real, com protagonismo e respeito. Em um mundo corporativo obcecado por ESG como KPI, o Hacktown mostra como isso pode ser vivo, estético, com cheiro de comida e voz de quem raramente está nos decks.

ONDE ESTÃO AS MARCAS? (E ONDE ELAS DEVERIAM ESTAR)
As ativações de marca estavam presentes, mas podiam ir além. Faltou coragem para arriscar, para criar experiências imersivas, sensoriais e memoráveis. Em um evento onde todo mundo quer fazer parte, quem faz parte mesmo vira destaque. Ainda dá tempo de repensar o lugar das marcas nos festivais de inovação: menos brinde, mais presença. Já a Google marcou presença não só com a Casa Google mas com um brinde que tomou conta da cidade, um clipe de patinho. A Casa Claro mostrou presença com uma programação de djs que encerra os dias com muito agito.
O QUE FICA DEPOIS DO EVENTO
Saí do Hacktown com a cabeça girando e o coração em movimento. Porque o que faz um evento ser memorável não é a grade de conteúdo, é a curadoria de presença + ideias. E isso é um convite para quem trabalha com cultura, estratégia e influência: mais do que seguir tendências, precisamos vivê-las. Porque só quem pisa na lama entende o valor de um bom par de botas. Ou, no caso de Santa Rita, de uma boa prosa no meio do caminho.
