Criatividade em tempos de coronavírus: como se manter inspirado no isolamento?

Criatividade em tempos de coronavírus: como se manter inspirado no isolamento?

Do sentimento de desolação à descoberta de novos hábitos e prazeres do isolamento social, fomos todos obrigados a buscar meios criativos para nos adaptar à realidade causada pelo surto da Covid-19 no mundo.

Para os criativos da publicidade, o desafio se tornou ainda maior. Como manter um fluxo de inspiração no trabalho, em um momento de tantas notícias desmotivadoras, e ainda ter que pensar em métodos “dentro da caixa” para uma melhor vivência neste período?

Tiramos essas dúvidas com os Lead Creators das nossas in-houses e as reações à situação têm sido das mais variadas. Há quem esteja sentindo falta até do trajeto para o trabalho, como é o caso de Giovana Fazio. Segundo ela, “o trajeto até o trabalho, que a gente muitas vezes despreza, funciona no timing perfeito para desconectar e conectar. No meu ‘home office quarentenesco’ essa conexão/desconexão está sendo feita meio que forçada no começo. Estou tentando definir e respeitar melhor meus horários, porque essa não-troca de cenário entre casa, trabalho, esporte e lazer tem que ser a mais saudável possível”. 

Já Marcelo Fernandes tem aproveitado o isolamento para transformar as refeições diárias em um momento destinado à família. Enquanto o home office e as aulas online do colégio deixam todos separados em seus cantos, a hora do almoço também é aquela de se conectar e interagir com a mulher e filhos. “Geralmente paro durante uma hora e meia e tento me dedicar à rotina da casa. Converso com minha esposa, brinco com minha filha Ava e vou dar algum suporte para meu filho Theo. Todos comemos juntos e conversamos sobre algo legal que não seja o assunto ‘estar em casa’ ou a Covid-19″, diz.

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A busca pela reinvenção da rotina em isolamento social trouxe, porém, boas surpresas para alguns dos nossos criativos. Murilo Battistella sente que sua produtividade melhorou no modo home office. “Talvez não no sentido de fazer mais, mas de fazer melhor. Eu tenho um problema de foco, então odeio ser interrompido. Trabalhar sozinho por aqui acaba ajudando a me manter mais no ‘flow’, aí faço os trabalhos com mais carinho e nem vejo o tempo passar.  A criatividade também leva vantagem, pois estou no meu próprio habitat. Por sorte, aqui tenho tudo que preciso para me manter criativo: ferramentas para criar, tablet de desenho, canetinhas, livros para consultar referências, e por aí vai. São aquelas coisas que a gente não consegue levar para o escritório e às vezes fazem falta no dia a dia”.

Ferramentas e livros de referência estão OK, relacionamentos familiares também OK, mas e quanto à inspiração, o que fazer para manter-se motivado a criar? Aqui vão algumas dicas dos nossos criativos:

 


Foto: Reprodução

 

David Meléndez – Lead Creator México
Para manter a criatividade fluindo, eu procuro ler blogs e sites relacionados a arte e criatividade. Uso o plugin Panda para organizar os sites e fontes de inspiração que encontro na internet.

Meu conselho é ser paciente e criar uma rotina de trabalho saudável e equilibrada. Dar a si mesmo momentos para ver ou ler coisas que goste e manter contato, seja por vídeo ou outros meios, com outras pessoas.

 

Giovana Fazio – Lead Creator Argentina
Na minha vida “normal” tenho vários sites e ferramentas, mas na quarentena estou tentando não estar tão online, então coisas que eu fazia direto no celular estou levando pro analógico, minha agenda está no papel, por exemplo, durante esse período.

Tento manter planos os mais offlines possíveis, como voltar a tentar pintar aquarela. Mas na prática, até agora, tenho cozinhado bastante e minha horta (de apartamento) nunca esteve tão linda. No meu processo criativo é muito importante respeitar essas pausas pra conseguir ter pontos de vista diferentes.

Processo criativo precisa de fluidez, concentração e alguns breaks também durante o dia. Não adianta querer tirar todos os projetos do papel em 15 dias. Take your time, mas se tem algum tempo livre, acho legal tentar aprender algo novo bem difícil, que nunca teve tempo de se dedicar com disciplina.

 

Marcelo Fernandes – Lead Creator Brasil
Eu sempre mantenho a cabeça ligada em tudo. Leio, assisto muita coisa, escrevo muita coisa. Os artigos da Fast Company, ou a creative applications.net são boas fontes. Ouço muitos podcasts também. Something you should know e o do Ted Talks são muito bons.

A criatividade é um processo complexo que, no nosso caso, é dirigida para resolver problemas de comunicação para marcas e como elas se comunicam com os consumidores. Então a criatividade é esse elo de ligação. Não existe uma regra para você manter. A única coisa que eu sei é que você precisa mantê-la ali dentro da sua cabeça. É a sua arte.

Por último, deixo uma citação do publicitário americano Bill Bernbach, em 1947: “Publicidade é, fundamentalmente, persuasão e a persuasão não é uma ciência e sim uma arte. É essa centelha criativa que tenho tanta inveja na nossa agência e tanto medo de perder. Eu não quero acadêmicos. Eu não quero cientistas. Não quero pessoas que fazem a coisa certa. Quero pessoas que fazem coisas inspiradoras. (…)  Se quisermos avançar, devemos emergir como uma personalidade distinta. Devemos desenvolver nossa própria filosofia e não ter a filosofia publicitária de outras pessoas imposta a nós”.

 

 

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A parábola do criativo in-house

 

Murilo Battistella – Lead Creator Brasil
Minha criatividade funciona muito bem com música, e em casa é mais fácil passar o dia inteiro com fones de ouvido. Deixo meu violão do meu lado aqui na mesa, aí quando estou pensando em alguma coisa fico dedilhando nele. Isso ajuda a pensar mais livremente, eu acho. Sempre fui daqueles que defende que a pior maneira de se inspirar é ficar olhando pra uma tela. Aqui eu tenho várias alternativas a ela.

Acho que a pior coisa para a criatividade é querer impor uma fórmula pra ela, então o melhor conselho é não dar nenhum. Existe um livro muito bacana chamado The Creative Habit, escrito pela Twyla Tharp, uma coreógrafa renomada. Ela defende como a criatividade precisa de uma rotina para acontecer e dá exemplos de como Beethoven acordava todos os dias pela manhã e, antes de fazer qualquer coisa, saía para caminhar no bosque com um papel na mão, anotando as primeiras notas que lhe vinham à cabeça. Enfim, ela defende que ter um hábito criativo ajuda a transformar nossas brisas em ações, colocando nossos cérebros “na cara do gol” pra criar alguma coisa. 

Acredito que todo mundo deve ter um hábito criativo, como defende a Twyla, mas aí só você pode dizer qual deve ser o seu. É só ficar atento ao que te inspira.

 

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